Vi este filme, que é baseado na obra de Umberto Eco : “O nome da rosa”, ( li algumas partes em casa, daí falar do livro também ) nas aulas de Filosofia do ano passado. A forma como foi realizado não é brilhante, contudo o argumento dá que pensar. Sem dúvida, dá que pensar...
Desde sempre que o progresso, por um lado excitou, motivou, entusiasmou muitas mentes brilhantes que contribuíram e dedicaram a sua vida à ciência para uma evolução desta. Contudo, houve sempre alguém a quem estas ideias nunca agradaram. Uns por interesse, outros por cepticismo, de forma que encaravam a ciência como uma ameaça e assim foram criados ao longo de séculos inúmeros obstáculos ao seu progresso. Com o passar dos séculos e através de uma cultura que foi fornecida a muitos milhões de homens, que puderam finalmente usufruir das capacidades que nos foram dotadas e para as quais muitos as utilizaram e puderam também compreender a verdadeira importância da investigação científica, os obstáculos foram diminuindo. Todavia a ciência depara-se hoje com graves problemas intelectuais e éticos devido a escuros, duvidosos e polémicos caminhos pelos quais enveredou na sua forma de investigar, experimentar e os temas sobre os quais se debruça.
Parece-me claro que naquela época ( medieval ) era difícil admitir um longo conjunto de ideias, para as quais a ciência encontrava explicação e se opunha firmemente, por parte de determinadas pessoas e instituições. Assim um fruto precioso da nossa inteligência, a investigação cientifica, sempre foi de difícil digestão às mentes menos trabalhadas, informadas e desenvolvidas. Sem bases que sustentassem um conhecimento tão apurado, como são todos os temas da ciência, as mentes que, em grande maioria povoavam a Idade Média, permaneceram, durante o seu período de vida, cépticos às respostas desenvolvidas pela ciência. É exactamente esta mentalidade que nos é apresentada nesta obra.
Por forma a compreender melhor a situação, convém-me contextualizar o momento da obra. “É o ano de 1327, o Papa está em Avinhão, o imperador Ludovico, o Bávaro, desceu até à Itália com a intenção de entrar em Roma”; a cristandade está fragmentada e ressentida pela luta entre os dois poderes, pelos múltiplos movimentos de reforma espiritual e pelas heresias. Nesta importante abadia prepara-se a reunião dos teólogos de João XXII e os do imperador. Os Franciscanos tentam chamar a Igreja de volta à pobreza evangélica, obrigando a uma renúncia ao poder temporal.
Perante a situação em que se encontra Guilherme de Baskerville e seu discípulo, Adso de Melk, aquando da sua chegada, onde um monge morrera misteriosamente, pouco antes da chegada dos dois personagens, estes são encarregues de investigar o caso. O crime é atribuído, por alguns monges, ao Diabo. É neste ponto que as convicções fornecidas pelo método cientifico se demonstram superiores a quaisquer suposições. Guilherme, guiado pela sua razão exercitada, prossegue a sua investigação obtendo resultados e respostas incríveis. Apesar do aparente interesse pelas respostas, alguns monges opõem-se ao progresso desta investigação. Defendendo os seus interesses pessoais e pela fé, tornam impossível a obtenção de um resultado concreto tendo Guilherme e Adso que “contornar” algumas das regras da abadia sob pena de não conseguirem resolver o mistério. O maior obstáculo encontra-se no monge Jorge que, por seu capricho, inicia uma incessante protecção dos livros que considera serem demasiado perigosos à sua religião. Um complicado estratagema para encobrir obras valiosíssimas acaba na morte de sete homens. A razão para tal procedimento baseia-se na sua opinião pessoal de que tais referências, como o riso presente no segundo livro de Aristóteles, seriam uma blasfémia a Deus e a toda a cristandade, “tornando o mistério do divino na paródia humana das categorias e do silogismo”. Este monge vê no riso a corrupção e a fraqueza, que faz crescer outros desejos e outras ambições que não aquelas que são realmente puras; neste livro faz-se dele objecto de pérfida teologia. Ele afirma que este livro poderia ensinar que libertar-se do medo do diabo, isto através do riso, pode conduzir à sapiência. Os livros físicos do mesmo autor seriam igualmente perigosos pois poderiam levar a uma renovação na forma em que o universo era pensado. Também o bibliotecário afirma que “o saber não se procura”, o que consiste o maior dos obstáculos que se pode deparar à investigação cientifica, pois esse é precisamente o seu objectivo.
Encontramos claramente representadas neta obra várias barreiras, umas perfeitamente transponíveis, outras que talvez nunca se venham a transpor em toda a história da humanidade.
Nesta época medieval, onde a fé tem um papel fundamental na educação, na vida de quase todos os que a povoam, tornou-se uma época difícil de progredir em ciência devido às questões que esta levantava, como: a forma como o universo está disposto; certos fenómenos atribuídos ao diabo que eram agora desvendados. O medo pelo diabo era cultivado por certas instituições que se sentiam ameaçadas pelos homens de ciência, que ensinavam outras formas de saber que não a Bíblia e outras sagradas escrituras que regiam todo o conhecimento religioso da época. Este medo cultivado inibia o pensamento para chegar a conclusões que não eram do interesse da Igreja. Mas como não podiam estas pessoas ver a realidade quando expostos a ela? Como a poderiam rejeitar? Simplesmente, os valores éticos e crenças pelos quais um individuo se rege fazem com que estabeleça certos limites ao seu mundo, à sua razão. Como podemos estender o nosso pensamento a algo que ultrapassa as nossas crenças? Este é sem dúvida um obstáculo que se encontra no interior de todos nós, sendo nosso dever alargá-lo o mais possível dentro daquilo que é justo.
Terminando deixo a minha breve opinião sobre esta elucidativa obra: situando-se na época medieval, este filme mostra e traduz o que realmente se passava naqueles tempos de incerteza, sem qualquer pudor.